O BURACO DA FECHADURA

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  • marcosthomazm

“É PROIBIDO PROIBIR” - A ARTE DE RESISTIR


Ainda adolescente, no despertar do interesse por música, a identificação com alguns artistas, sempre trouxe a reboque curiosidades também sobre predileções, afinidades das personalidades que começavam a embalar meu mundo e dar ritmo a minha vida. Acho que este interesse pelo que transcende a obra é inerente a todos que tem uma relação mais intensa com qualquer manifestação artística, mesmo que apenas para “consumo”.


Assim, “as pirações” com cada acorde, aquele verso, determinada postura de palco, logo foi expandida por mergulhos em busca de entrevistas, citações a outras referências sonoras, artísticas etc. Como toda personalidade pública, o artista é um formador de opinião, “além dos muros” da própria obra, e que bom que assim o seja...


Mas qual não foi minha surpresa ao me deparar com absurdas declarações do Ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, sobre posturas de músicos em shows. Na verdade opinando especificamente sobre a passagem do ex-líder do Pink Floyd, Roger Waters, pelo Brasil, o assessor de Temer criticou as manifestações políticas e chegou a afirmar que o britânico estaria “ganhando uma fortuna para fazer campanha eleitoral no Brasil”!


A fala, ultrajante em qualquer contexto, ganha contornos ainda mais surreais por partir de um agente da cultura, comandante do órgão máximo do fomento e preservação da manifestação artística no país. Ou seja, o ministro da CULTURA propõe a arte alienada, alheia ao que nos rodeia, um literal engessamento da livre manifestação artística!!



Mas indo na contramão, tocando em feridas e ampliando a questão, este episódio me reavivou a outra faceta do patrulhamento ideológico, a que, em outro extremo, impõe ao artista a necessidade de engajamento permanente em causas. Logo remetemos aos anos de chumbo da ditadura no Brasil e o conceito de resistência cultural! Lógico que era inevitável quem vivia aquele período não se manifestar, no mínimo ocasionalmente em sua obra, acerca das barbaridades e terror contra os que se “rebelavam” contra o regime. Mas esta “censura ao revés” criou estigmas e, em muitas ocasiões, condicionou o respeito a artistas e suas obras exclusivamente de acordo com a temática abordada em seus trabalhos.


Este padrão imposto pela crítica cultural tentou exaustivamente colocar em campos opostos, criar tensão e cisão, por exemplo, entre dois expoentes da época: o então modelo de artista, sempre engajado, Chico Buarque e o “menos enquadrado”Caetano Veloso! Ora Caetano de “É Proibido, Proibir”, “Alegria, Alegria” etc ser quase considerado alienado porque não cumpria a risca todos os pré-requisitos traçados a artistas ?? O absurdo de se tentar criar um paradoxo, dicotomia, um modelo padronizado de “artista engajado” se estendeu por tantas vias que descambou em simbolismos ao contrapor a guitarra elétrica e estética anticonvencional da Tropicália, ao violão (até passeata rolou!) e sambas politizados de Chico!


Ao contrário de muitos que se excedem também deste lado do front, o da resistência, não acho que a arte tenha que, obrigatoriamente, ser engajada, a todo instante! A arte tem que ser livre acima de tudo para ser arte! O engajamento em causas é um processo natural do artista e querer enquadrar, reduzir a um prisma monotemático por si só já é um cerceamento cultural. Viva a liberdade, viva a arte de quem quer falar de amor e dor, ou apenas de canhões... de flores!!

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