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O BURACO DA FECHADURA

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Bixarte resiste e proclama seu "Traviarcado"

Atualizado: 29 de mar. de 2023


Um deputado de peruca discursando ofensiva e, caricaturalmente na Tribuna do Congresso.


O país que, por 15 anos seguidos, é recordista mundial no assassinato de transexuais e travestis.


Aqui, no solo mãe, ela foi ofendida, agredida e levou uma pedrada apenas por ser quem é, fortuitamente, em plena luz do dia, na rua.


É neste terreno árido que Bixarte resiste, ecoa e lança seu primeiro “disco cheio”.


O nome do trabalho, não poderia ser mais sugestivo, aliás indicativo, do que propõe a arte política, incendiária da paraibana.


“Traviarcado é o nome do trabalho.


O que parece apenas petulância aos que se arvoram ditadores dos bons costumes, é muito mais que isso.


Determinação, obstinação, e ocupar, estar, mesmo onde não for chamada.


Se para isso for necessário derrubar as bases do patriarcado, que assim seja.


Bixarte sabe que a força dos seus versos abre clareiras, empodera as parceiras e não se furta a esta responsabilidade.


Ao contrário, encampa a missão como projeto de vida e arte.


Assim mesmo na dualidade amalgamada.


VIDA E ARTE embaralhadas.


Afinal ser duas, várias em uma sempre foi a sina dela.


O nascimento da artista Bixarte, ainda adolescente, nas batalhas de rap do Coqueiral ao Caju, fez nascer a Bianca.


A arte, sua amante, como a própria define, que a libertou e a fez compreender seu lugar de mundo enquanto pessoa.


E o lugar de mundo desta mulher é de quilometragem livre.


Dia 30, logo ali, estará nas plataformas de streaming o trabalho novo, com 9 faixas e produção esmerada do fiel escudeiro paraibano e DJ de Bixarte, Daniel Jesi, além de Guigo Berger.


No dia seguinte, fechando março, ela faz um show de lançamento de Traviarcado no Sesc Pompeia, em São Paulo, onde fixou residência, alternando base entre pontes aéreas com o Rio de Janeiro.


Sim, além de disco com produção esmerada a paraibana integra elenco da segunda temporada da série global Cine Holliúdy, o que para ela é retornar de fato as origens, visto que foi no Teatro, aos 8 anos de idade, que ela deu os primeiros passos artísticos.


Aliás, respeito, quase reverência às origens é como um mantra para Bixarte. Desta forma ela classifica o Festival de Música da Paraíba como divisor de águas de sua trajetória.


Ciente também que representa um marco para o próprio evento, ao colocar no topo, em evidência, destaque artístico estadual uma travesti cantando sobre travestis.


Todos estes movimentos significam um salto muito rápido e concretização fulminante do que era apenas sonho daquela, ainda, à época tratada como gay, veado, ou bicha (segundo ela própria), preta, pobre e periférica criança da Região Metropolitana da capital.


Bixarte é natural de Santa Rita.


Filha da cozinheira Dona Ana, fala com voz enternecida sobre a mãe.


Ao pai, refere-se apenas como genitor e em perceptível tom de indiferença, fruto, certamente das agressões que presenciava a mãe sofrer e do preconceito da qual ela era vítima dentro de casa.

Triste quadro que emoldura paredes das casas brasileiras.


Esta arte politizada, engajada para mudar a sua realidade e de toda a comunidade é uma bandeira primordial da artista.


Se antes já cantava “Cê não vai agüentar bater de frente com uma travesti”, agora incorpora à militância sempre ativa novos elementos, afinal “travesti também ama, também dança”.


Ela reconhece e se abre a um universo mais pop, plural, eletrônico, mas reafirma que a poesia marginal é a sua força motriz e está entranhada na sua mensagem.


Bixarte é sopro de resistência e caixa de ressonância de luxo, embalada em alto valor artístico, para uma comunidade que sofre com a violência e preconceito, perseguição de fato, travestido (desculpa o trocadilho) de conservadorismo.


Um movimento articulado, com tentáculos políticos estruturados que busca, na prática, institucionalizar uma espécie de legislação antitrans.


Apenas no Brasil são 69 projetos nesta direção em tramitação em Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e Câmara Federal.


O falso moralismo, eminentemente, do homem da tradicional família brasileira, exatamente aquele responsável por matar a maior parte das mais de 130 travestis, ou transexuais vítimas do ódio no Brasil, apenas no ano passado.


Bixarte é afirmativa, mas se necessário for, provocativa, quase debochada.


O tal parlamentar mineiro, transfóbico, que abre este texto, falou que teme a substituição das mulheres por trans no seio da sociedade.


Deve ser espaço e direito demais querer viver, sobreviver...


Se depender do discurso ferino de Bixarte, sim, as travestis e transexuais estarão onde elas quiserem, como todas as mulheres deverão estar.

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