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FESTIVAL DE MÚSICA DA PARAÍBA LEVA O RAP, A NEGRITUDE E A DIVERSIDADE SEXUAL AO TOPO

Atualizado: 8 de Dez de 2020


Bixarte e Fúria Negra no Festival de Música da PB - Foto Tercles Silva

Faz algum tempo que o RAP é a voz mais contundente a denunciar e reagir a esse cenário de trevas brasileiro. Como já profetizava Mano Brown lá no distante ano de 1997, “RAP é o som!”.


Quem melhor que Emicida, por exemplo,reflete e “dispara” contra essa distopia em que nos mergulhamos??


Das rimas rápidas e furiosas do RAP vem o recado mais lúcido, incisivo da música nacional...

E mostrando estar alinhado, antenado ao que dita o ritmo sonoro do tempo atual, o Festival de Música da Paraíba de 2020 foi exatamente a consagração desse estilo das ruas.


Três dos quatro prêmios ofertados foram destinados a representantes do RAP!


Bixarte, a paraibana que já é uma das grandes revelações do RAP nacional, foi a grande vencedora desta terceira edição do Festival de Música da Paraíba, organizado pela Rádio Tabajara, Funesc e Secretaria de Comunicação do Governo Estadual.


Além de levar de forma inédita o estilo, normalmente relegado às periferias, ao topo de um evento deste porte na Paraíba, Bixarte nos brindou com outra quebra de paradigmas: além de rapper, ela é travesti e negra. Foi essa tríade, quase blasfêmica (“Engole minha fé, Respeito teu amém, então engole o meu axé”) que a artista levou ao TOPO da música paraibana.


Quem acompanha um pouco a carreira de Bixarte sabe que ela não veio aqui, aliás não vai a lugar algum “a passeio”. Ferina, destemida, ousada, rápida no gatilho das palavras e, claro, agressiva quando é preciso. E poucas vezes alguém que reúne em si uma amálgama de “transgressões” aos ditos valores do “povo de bem” pode dispensar, abrir mão da fúria de resistência. À tríade (rapper, travesti e negra), que já representa uma “infâmia social” a determinados setores, ainda se soma a origem dela das periferias de João Pessoa. Um combo perfeito para despertar a ira dos intolerantes, travestidos de conservadores de plantão. Mas como ela alerta em outros versos da canção vencedora “Cê não Faz”, “nunca venha estranhar da minha força... Me queria morta, tô viva e fazendo rima”.


Bixarte venceu o Festival acompanhada da também talentosa Fúria Negra, há dois dias da celebração daquela, que a própria aponta como uma de suas protetoras: a rainha do mar, como ela versa: “Eu quero cantar, quem abre os caminhos é Yemanjá”. A benção veio antecipada.


Também do rap é o segundo colocado e eleito melhor intérprete do Festival de Música da Paraíba, Filosofino. “Artista independente preto e mangabeirense”, como o mesmo se define. Plural, Filosofino flerta com várias manifestações como a poesia, tatuagem e afins. “Manifesto dos Cantos” foi o brado do rapper, uma canção de versos rápidos, cortantes embalada por uma suingada levada Black.


Também bebendo na música negra, a raiz de toda a música pop, vem o terceiro colocado, Will, com a música “A cor de Sivuca”, uma celebração direta ao músico itabaianense, homenageado dessa edição do Festival. A canção é um tributo-contestação. Ao mesmo tempo que aproveita o conhecido albinismo (quase o retrato da "brancura total") de Sivuca para expor as chagas do preconceito racial, como quando ele entoa os versos "Se eu tivesse a cor de Sivuca", também contrapôe a realidade dessa doença do músico à sua genialidade artística e capacidade de absorver os ritmos de todas as matizes, como o artista cosmopolita, plural que era. Tudo isso sem deixar de pincelar históricos problemas sociais brasileiros com uma melodia cheia de soul music.


Viva a música paraibana, viva o RAP, viva a cultura negra, viva a toda liberdade!

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