O BURACO DA FECHADURA

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  • marcosthomazm

JUNTANDO OS CACOS EM UM "ABRIL DESPEDAÇADO"


No meu imaginário sempre foi exclusividade de Agosto ser o mês dos infortúnios, da falta de sorte...


Cabia exclusivamente ao oitavo mês do ano aquele espectro negativista de péssimos acontecimentos e atração de fenômenos ruins tanto individuais, quanto globais.


Essa crença de “Agosto o mês do desgosto”, ou “mês do cachorro louco” parece ter surgido junto com o próprio calendário cristão e é alimentada desde então, tanto pelo misticismo humano, quanto por trágicos acontecimentos a corroborar a tese.


Das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki a crises financeiras individuais em um mês interminável, absolutamente tudo é combustível para “queimar” agosto nas folhinhas...


Esses conceitos populares são tão fortes, que eu, longe de fazer um perfil supersticioso, carregava entranhado em mim. Como um misto de teoria e crendice, sem me dar conta, ou me aperceber da dimensão introjetada disso.


Assim pensava inocentemente, até viver um agosto em pleno abril.


Em uma espécie de cobrança ao sobrenatural, em meio a aflição de uma enfermidade prolongada, certo dia questionava o deslocamento, a falha temporal do meu agosto antecipado.


Claro, sou humano e mesmo não praticante de nenhuma fé religiosa, tenho a minha fé e meus contatos transcendentais com os “deuses” e, portanto, direito inalienável de questionar.


No alto do inconformismo diante das adversidades, que habita em mim, em nós, terrenos, queria um porquê para um agosto tão fora de hora.


Como uma epifania, certo dia, despretensiosamente, lia um curioso texto de Vitória Lima, no Jornal A União, sobre “desencontros” característicos do mês de abril.


A narrativa fluida misturava conceitos literários (de Shakespeare a T.S Eliot) e estação da época no Hemisfério Norte (Primavera) para fazer de abril uma ilustração da finitude.


Talvez até, transportando para a nossa translação global, a perspectiva adquira ainda mais sentido: aqui, abaixo dos trópicos, onde tudo é mais exacerbado é tempo de outono, folhas ao chão, sazonalidade, vulnerabilidade humana.


Deixando de derivações e essa mania de subverter, ou apenas meter o bedelho no conceito alheio, vou voltar a escrita de Vitória Lima...


Entre o símbolo do renascimento, renovação da exuberância primaveril (mesmo que nos países de origem da crença) e a exaltação trágica da literatura ela fazia a ilustração da crueldade do mês de abril.


Resignado, acatei a condição/explicação.


Simbolicamente, como o pássaro que troca de pena, vou me despedindo das agruras, enquanto já viro a página de abril.


Me reconcilio com os astros e junto os cacos neste abril despedaçado!

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