O BURACO DA FECHADURA

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  • marcosthomazm

Minha mãe é o meu Papai Noel!


No meu imaginário Natal sempre foi personificado em uma mulher e não em um senhor velho, padrão europeu!


Nas minhas melhores lembranças Natal era tempo de celebrar minha mãe e não Papai Noel.


Mas, antes de tratar mais sobre as ceias natalinas lá em casa, derivo um pouco para falar de minhas impressões sobre os símbolos desta época.


Adianto logo que não nutro qualquer magia em torno da figura do “bom velhinho”.


Bom pra quem? Para os filhos de pais abastados que podem comprar presentes caros e modernos?


E olha que eu estava entre alguns dos privilegiados, com bons presentes...


Mas quem é este tal Papai Noel estilizado para o menino da periferia, para o morador de rua, para o preto pobre?


“rejeita os miseráveis... aquele porco capitalista” como diz o singelo clássico punk dos Garotos Podres.


Excludente e mais um símbolo importado, europeizado.


Veja só, celebramos um velhote nórdico, todo empacotado, puxado por cervos e simulamos até neve em arranjos suntuosos espalhando a meninada sobre mantas de lã, fazendo-os suar em bicas e espirrar litros de alergia para todo lado (uma fixação provinciana se esbaldar em flocos de neve, mesmo que de mentirinha).


A Coca-Cola radicalizou e trouxe até urso polar para nosso universo tropical. Por sinal os caminhões da empresa se transformaram em uma das grandes sensações da época. Uma correria para assistir a passagem dos veículos, evento no calendário até da prefeitura!


O mais próximo de qualquer elemento cultural local dentre os símbolos do Natal é, curiosamente, o presépio natalino, afinal tem uma sensação de clima de aridez do sertão, mas fundamentalmente, minha associação é pela presença das cabrinhas! Dá até para se sentir no cariri paraibano.


Ok, ok, Papai Noel e seus “anexos” não são os únicos símbolos “gringos” absorvidos pela nossa cultura e este debate é bem complexo, mas estou falando dele. Então, me deixe protestar.

Nem os votos e clima solidário, caridoso desta época escapam a fajutice.


Um monte de gente desejando o melhor da boca pra fora, fazendo promessas vãs, ofertando o resto do muito que tem como uma espécie de “limpa consciência”, filantropia misericordiosa em relação a toda desgraça que promovem ao longo de todos os outros dias do ano. Uma lindeza só, tão artificial quanto aquele disco de Simone cantando Natal, que nem o comércio aguenta mais.


“o que você fez?? O ano termina e começa outra vez...”


Para não me acusarem, levianamente, de ser amargo, devo dizer que, até acho bonitas as luzes de Natal, mas não me hipnotizo por isso e não estaria disposto a pagar as contas de energia provindas destes piscas-piscas.


Dia destes vi uma matéria com um cara que tinha quase 500 árvores de Natal espalhadas pela própria casa, na Alemanha.


O cidadão deve dormir pendurado em um pinheiro, veja bem...


Cada qual, no seu cada qual. Não quero cortar barato de ninguém, mas também me largue com minhas negações.


E digo tudo isso, admitindo que, ainda agora, grande e casado, lá em casa se monta árvore de Natal, se coloca adereços na porta, maçaneta, janela, testa e tudo o mais.


Meu filho caçula fala e, talvez, acredite em Papai Noel (ainda não sei identificar bem se é crença de fato, ou estratégia para manter a chama de lembrancinhas acesas junto aos pais. Vai saber destas artimanhas mirins).


“Besta é tu”.


Voltando a fita...


Como disse, lá na minha tenra e remota infância, o simbolismo natalino de reunião familiar sempre esteve pautado pela data de aniversário da matriarca Lydia Carmen.


Nos reunirmos todos pelo 24 de dezembro era a melhor forma de festejar a existência de mainha, afinal aquela congregação entre os seus era o melhor presente, que poderia receber.


Minha Buerarema, cidade pequena, além dos familiares, agregados também se juntavam à festa, que virava uma enorme celebração espontânea, mas adornada por estes elementos típicos da época, claro, incluindo o tal cardápio exótico e insosso de uvas passa, frutas cítricas e afins.


Fazer o quê, né? Bora comer, sem ousar lamentar. Tantos sem nada por aí.


E todo esse aparente lamento é apenas para reafirmar que morro de saudades de viver tudo isso do mesmo jeito (até a lembrança de painho vestido de Papai Noel me comove) e tudo o que desejava, hoje, era estar junto e misturado a todos os meus, com todos estes adereços e dar um xero grande em “minha Bolotinha”, que vale bem mais que um velhinho, trenós, sacos de presente e esses penduricalhos diversos!

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