O BURACO DA FECHADURA

rabiscos, escrevinhações, achismos e outras bobagens

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  • marcosthomazm

OUÇA O QUE EU DIGO, NÃO OUÇA NINGUÉM...


Lealdade é um atributo geralmente elogiável. Valorizamos nas relações de torcedores com seus clubes de futebol, nas relações de amizade etc. Já a lealdade ideológica, com toda sua nobreza, permeia mais o campo das convicções. Mas e quando uma organização, bandeira que você ostenta e defende com orgulho, desfigura aquilo que incitou você mesmo a encampar??

O proselitismo político, a defesa cega e irrestrita a uma sigla partidária, com todas as nuances que regem a existência destas, na maioria das vezes resvala na obtusidade, nos faz trair nossas próprias convicções! E lealdade a partido político não tem a ver com fidelidade as suas convicções meus caros, senão vejamos...

Tenho muitos amigos militantes petistas "de batente" e, naturalmente, como situamo-nos no mesmo lado da história, o campo progressista, comungamos da maioria das visões políticas em comum, mas esbarramos exatamente quando adentramos o pantanoso terreno de algumas questões intrínsecas ao modus operandi do Partido dos Trabalhadores. Como adeptos de uma seita, os petistas não admitem nenhum tipo de mea culpa ao "motor da história", ou reflexão a episódios em que, inclusive, acabou fazendo-os de vítimas...

Bom exemplo é o "golpe". Durante a eleição deste ano o que mais escutei de militantes do PT na Paraíba é de que não votam em golpistas. Este discurso mais especificamente foi dirigido a Veneziano Vital, “companheiro” de Luiz Couto (principal nome da legenda hoje na Paraíba) na chapa do PSB na candidatura ao Senado. Veneziano, de fato, votou a favor do impeachment, quando ainda se abrigava nas hostes peemedebistas. Após isso, se filiou ao Partido Socialista Brasileiro na Paraíba, seccional que desde sempre foi a única do partido a nível nacional, a se manter publicamente contra o golpe da presidenta Dilma Roussef! Além de um gesto de reciprocidade e fortalecimento do PSB paraibano pela lealdade histórica, a “aceitação” a candidatura de Veneziano seria uma estratégia para derrotar o tucano Cássio Cunha Lima (o que se concretizou), este sim um dos principais opositores ao PT nacional. Enfim, mesmo com todas estas variáveis, a justificativa da não adesão a Veneziano até continuaria plausível por convicção anterior, não fosse a incapacidade destes membros do PT em fazer uma leitura das movimentações da própria legenda que defendem a ferro e fogo.


Sigamos... O único prefeito do PT na Paraíba, Olivânio Dantas, da cidade de Picuí, declarou apoio a candidatura do peemedebista José Maranhão ao governo do Estado. Hã? Isso mesmo, com aval da direção estadual, que apóia e compõe a chapa majoritária da candidatura situacionista de João Azevedo. Mas, calma lá, sem espanto!! Este alinhamento entre PT e “golpistas”, aliás, foi prática mais que comum e oficializada nestas eleições. Das Alagoas de Renan Calheiros ao Ceará de Eunício Oliveira o palanque colocou lado a lado os artífices do golpe e a estrela vermelha traída. Mas a isso a militância engoliu o orgulho ferido pelo golpe, e, sem pestanejar, lançou mão da desculpa da política de alianças necessária. São as tais concessões seletivas!!


Mas como “desgraça pouca é bobagem” a última “boa nova” petista veio da revelação de que o Partido dos Trabalhadores, através da sua executiva nacional fez a doação de módicos 500 mil reais (eu disse MEIO MILHÃO DE REAIS) a campanha da inexpressiva Malu Vinagre (ostentadora de míseros 737 votos), candidata a deputada estadual pelo Pros da Paraíba. Além da quantia representar um volume maior do que o partido destinou a qualquer um dos candidatos na proporcional da própria legenda (isso mesmo, o caridoso PT doou mais a um candidato de outra legenda do que a representantes da própria sigla!?!!? Em tempo, o PT não elegeu um único deputado estadual na Paraíba e apenas um federal!!). O fato é que, além de desconhecida, a candidata é irmã do deputado federal André Amaral, candidato a reeleição, que só não votou contra o impeachment porque não tinha cadeira no Congresso ainda, mas votou a favor da Reforma Trabalhista, da PEC do Congelamento dos Gastos, da Terceirização etc. Aliás, para constar, nacionalmente, a soma dos recursos destinados pelo PT ao PROS somaram a bagatela de 4,5 milhões de reais! Foi a configuração, na prática, da legenda de aluguel, visto que o PROS, junto ao PCdoB era o único partido na base de apoio da candidatura de Haddad.


Difícil exigir autocrítica do Partido dos Trabalhadores se a enorme e ativa militância é a primeira a empurrar todos os problemas para debaixo do tapete, se reagem com arrogância a qualquer questionamento, se não reconhecem que o PT, independente de ter representado os maiores avanços sociais deste país, não está imune a erros/falhas e não tem salvo conduto para os crimes que cometeu!! A autocrítica, reflexão ecoada aos quatro cantos por diversas vozes interna e externamente, foi relegada a segundo plano baseada na crença que o brado “Lula Livre” garantiria a eleição e “expurgaria todos os demônios” de autoritarismo, intolerância que ameaçavam retornar, sob espectro do “novo”, “antissistema”.


A postura do PT ao se manter indiferente aos apelos por uma frente de centroesquerda com Ciro, por exemplo (que representava, na ausência de Lula, o único candidato progressista com algum relevante espólio eleitoral próprio), reforça a tese de que, acima do projeto nacional, o PT priorizou o projeto de partido, pois preferia ser oposição a figurar em um hipotético governo em que não fosse protagonista, epicentro das decisões e visibilidade, como historicamente se situou no campo da esquerda.


É certo que, na reta final a derrota foi amenizada e ganhou ares nobres de resistência com grandes e belas manifestações espalhadas pelo país, mas que o Partido dos Trabalhadores não incorra na tradicional arrogância e faça a leitura de que as adesões e a totalidade dos milhões de votos representam hoje convicção no projeto que defendem, ou nas práticas adotadas!! Ao contrário, em caminho oposto, significativa parcela, manifestou muito mais uma total e firme negação ao que o outro lado representava. Como bem alertava Mano Brown; “Não gosto de clima de festa”!

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