O BURACO DA FECHADURA

rabiscos, escrevinhações, achismos e outras bobagens

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  • marcosthomazm

PESADELO DANTESCO


Eles chegaram sorrateiramente.


Na penumbra, nem me dei conta.


Ainda trôpego, cambaleante da queda, “da velocidade terrível da queda”, tateava no escuro o chão árido, pedregoso, quando percebi, intuitivamente, a presença deles.


Eram muitos, dezenas, talvez centenas.


Dava para ver pelos olhos flamejantes. Duas bolas de fogo em cada canto a iluminar o breu total.


Além da vermelhidão dos pares de olhos a me fulminar, apenas os sussurros roucos, grunhidos ininteligíveis anunciavam a presença indesejada.


Emitiam sons de predador...


Atônito, a princípio, fui presa fácil.


Tragado pelas trevas.


Torpor, nem me debatia.


Agonizei tempos a fio.


Após a tormenta, tentava voltar à superfície, mas era sugado às profundezas de novo.


Minha angústia dantesca me arrastava uma e mais outra vez ao abismo.


Estava cercado, sem rota de fuga visível.


No céu não havia estrelas, quiçá lua, como se estivesse a me cobrir apenas uma única e imensa nuvem plúmbea.


Uma massa cinzenta sem definição.


Ar rarefeito, claustrofobia, pânico.


Sede, garganta seca, tremores, movimentos involuntários.


Esqueçam os contos tradicionais, quando eles chegam, na surdina, não há fórmula, ou poção mágica.


Não existe água benta, dente de alho, ou estaca de madeira...


Não é seu sangue, ou sua alma na mira.


O alvo é sua mente.


Se deleitam em banquete com o consciente e subconsciente.


Uma esbórnia dentro de sua cabeça temperada por ego, superego e ID.


Parasitas a devorar-te por dentro, terrorismo psíquico.


Desperto do pesadelo em sobressalto.


Encharcado de suor e tremendo de frio.


O ar condicionado gela o quarto, mas o sol já dispara os primeiros raios pelas frestas da persiana.


Os que estiveram ali, ou não, aparentemente já se tinham ido.


Suspiro aliviado.


Abro a janela, um odor insuportável invade o quarto.


Saio no corredor levando o saco de lixo para despejar no tonel da rua.


Aceno para a vizinha de cabelo curto chanel.


Pendurada na varanda do seu apartamento, no prédio ao lado, ela me abre um sorriso desmedido, macabro de tão elástico.


Já de costas, ao fundo, penso ouvir risadas sarcásticas.


Ao me virar, novamente, o sorriso já é de soslaio, canto de boca, quase ferino.


Me aponta o dedo em riste, em sinal de chiste.


Sinal de alerta. Redobro a atenção. Eles sempre permanecem à espreita.


“O inferno nem é tão longe... não demora muito e ele chega pra qualquer um...”

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