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  • marcosthomazm

QUANDO A VIDA IMITA A ARTE (O roteiro de ficção sulamericano)

Atualizado: 26 de Nov de 2019


Muito além das características comuns de colonização, ou as fronteiras que os une e separa, os países sulamericanos ao longo da história estiveram quase harmonicamente/sincronizadamente interligados pelos aspectos políticos! Como um fenômeno endêmico as tendências ideológicas se alastraram como vírus de forma simultânea pelo Hemisfério Sul, em vários momentos da nossa história.


Para ficarmos apenas em uma “era moderna”... A concomitância de eventos se verificou nos repressores e sanguinários regimes militares, que se estenderam por décadas a fio em países como Chile, Argentina, Uruguai, Brasil etc! Se replicou na década de 80 e 90 com a onda neoliberal se espraiando pela Sulamérica (quem não se lembra do marajá brasileiro Fernando Collor?)... Se repetiu na ascensão da esquerda e representantes de movimentos sociais no começo dos anos 2000...


Mas nada se compara ao agora, ao tempo que corre nesse segundo. Parece que, interligadas por explosivos, as nações dispararam ao mesmo tempo uma bomba relógio! A convulsão social que se abate pelo continente parece saída das páginas da rica literatura local. O título poderia ser a continuação de “As veias abertas da América Latina”, do uruguaio Eduardo Galeano. Já o enredo faz o realismo fantástico do colombiano Gabriel Garcia Marquez parecer uma singela fábula infantil.


Fato é que nem o fecundo ficcionismo sulamericano foi capaz de prever o cenário caótico em que a região está mergulhada. Mais da metade dos países locais estão sob, ou passaram por tensão social este ano: Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Brasil, Venezuela... Golpes de Estado, dissolução de Congresso, suspeita de fraude eleitoral, renúncia, autoproclamação presidencial, estado de exceção, militares nas ruas, mais golpe de estado e toda sorte de infortúnios se abate sobre o lado de baixo das Américas!!


E nem adianta tentar capitalizar politicamente com o caos! Não dá para se fazer proselitismo com o cenário de terra arrasada continental... Há responsabilidades em ambas as vertentes... O maior emblema desse cenário desolador é o Peru, com absolutamente todos os presidentes deste século envolvidos em investigações de corrupção!! É inconteste os resultados dos governos dito socialistas na região, em contraponto as outras gestões de direita, mas quase via de regra, esses artífices do desenvolvimento regional estiveram mergulhados em controvérsias, contradições, como veremos a seguir...


Se, sob o domínio da esquerda (pós anos 2000), os países sulamericanos registraram crescimento e maior redução da desigualdade social da história (entre os anos 2000 e 2014 a pobreza caiu de 27 para 12%, segundo o Fundo Monetário Internacional), também foi um líder dito socialista (Hugo Chávez) a abrir as portas do autoritarismo com pinceladas ditatoriais neste século na América do Sul!


Ou alguém se esquece que esse mesmo regime venezuelano Chavista dissolveu o Congresso, formou Suprema corte alternativa, controlou em absoluto meios de comunicação etc e continuou gozando de toda legitimidade e sustentação garantida pelos outros líderes esquerdistas da região?? Dá para estabelecer alguma semelhança das ações de Chávez/Maduro com as intenções constantemente declaradas por Bolsonaro contra poderes instituídos??



Se a Bolívia tem em Evo Morales o maior governo da sua história e ainda continuava a gozar do milagre econômico com índices de crescimento bem acima da média mundial (projeta-se algo em torno de 4% ainda este ano, mesmo em meio a crise), o próprio “país das altitudes” coloca o mesmo líder indígena sob suspeição ao acusá-lo de desrespeitar referendo popular, forçar reeleição e provavelmente ter fraudado o pleito que o manteve no poder e o transformou no governante mais tempo a frente do país! Difícil, apenas por paixão ideológica, desprezar em absoluto as insinuações de caudilhismo!!


Em tempo, independente das acusações, foi Golpe o que tirou Evo do poder (nenhuma força militar tem respaldo para retirar ou determinar saída de qualquer governante do poder), foi Golpe o que aconteceu no Brasil, é Golpe o que a direita continental está acostumada a aplicar desde sempre em todos os quadrantes deste remoto espaço no planeta! Mas isso é outra história...


Outro exemplo das nossas próprias contradições é a Argentina... Se os hermanos nas urnas superaram o engodo de prosperidade envolto no discurso de livre mercado do Mauricio Macri e devem celebrar sua rápida saída do poder, por outro lado, nós daqui parecemos esquecer o passado recente... Uma coisa é considerar melhor uma opção a outra. Muito diferente é vibrar com frisson, como fez a esquerda continental pela recondução ao grupo do poder da controversa Cristina Kirchner, aquela mesma que manipulava claramente índices econômicos e chegou a afirmar textualmente que na Argentina havia menos pobreza que na Suíça e Alemanha, por exemplo!?!?! Isso também lembra algum gestor que recentemente dizia que “No brasil não havia fome??”.



Bem, e sobre a direita?? Além da já citada prática intrínseca dos golpes em todas as esferas, dilapidação das riquezas dos seus povos para atender a interesses econômicos externos e governos pautados em achaques a questões sociais, como ilustra o governo chileno de Pineda, ou o equatoriano sob comando de Lenin Moreno?? Pouco, muito pouco a falar...




De um lado, ou de outro, envolta nessa atmosfera de polarização extrema, democracias frágeis, poderes e conquistas ameaçados, justiça desacreditada, crescimento do fanatismo religioso, entre outros, convulsiona uma América do Sul pobre, desigual...


E voltando a recorrer a arte para ilustrar o panorama sulamericano, a máxima de Caetano Veloso continua a preponderar quando trata da “incompetência da América Católica, que sempre precisará de ridículos tiranos...

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