O BURACO DA FECHADURA

rabiscos, escrevinhações, achismos e outras bobagens

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  • marcosthomazm

Quando torcer é um ato de resistência!


“Brasileiro, em média, não ama time de futebol. Ele gosta é de ganhar, estar do lado vencedor”


Eu já vou começar esta missiva alertando que meu caçula de 5 anos, com uma única ida ao estádio na vida, é dos torcedores mais raízes que conheço, desta e de outras paragens...


Enquanto tem um monte de marmanjo sofredor de longa data que murmura e ameaça abandonar o time nas primeiras adversidades, o meu moleque segura a onda altivo.


Já frisei que, quem me conhece sabe que sou Vitória.


Também já contei aqui que o Ben escolheu o Botafogo para torcer espontânea e voluntariamente, contra qualquer lógica, nesta, ou em outra vida.


Repito, nunca forcei meus filhos a serem Vitória, mas, de maneira natural, influenciava com roupas, adereços, ou o simples hábito de assistir, acompanhar o Vitória etc.


Mas o marrentinho apenas ouviu o nome Bo-ta-fo-go em algum programa esportivo e isso bastou para cativá-lo.


Desde então “a casa caiu”. Restou-me contornar para o “lado bom da força” e conduzi-lo a torcer para o time da estrela solitária da casa, no caso a boa Paraíba.


Até aí tudo bem com o controle emocional para lidar com a minha própria desconstrução de conceitos.


O que não fazemos por um filho e sua liberdade, né?


O problema é que, junto com o “amor bandido” do Ben por um outro time, além das divisas lá de casa, veio um clima de rivalidade.


Zoneiro por excelência já estabeleceu em mim o alvo das zombarias e adversário predileto (e nem estou falando do fato do ECV ter, estranhamente, se tornado freguês do Belo, ele nem conhece essa parte, ainda. Imagina?).


Voltando ao começo de tudo...



Logo após as manifestadas inclinações ao alvinegro da estrela vermelha, levamo-nos a um jogo (a mãe e o Tio Raffa estavam na jornada).


Não era qualquer jogo, final de campeonato paraibano contra um dos maiores rivais, o Campinense.


Como pra mim lugar de torcedor é na bancada, em meio a festa, ficamos ao lado da bandinha animada e que cantou por noventa minutos.


O Ben fez a parte dele, aprendendo e reproduzindo ali mesmo os primeiros versos a empurrar o seu time do coração.


Nem sua empolgação pura ajudou.


Derrota de virada.


Clima de frustração geral.


Uns amigos do Belo até lamentaram que, a partir dali, teriam perdido o jovem torcedor.


Que nada.


Ao chegar em casa mais uma demonstração da personalidade forte deste imberbe.


O irmão perguntou quanto e como foi o jogo.


Ele logo respondeu que o Campinense venceu por dois a um, mas inflou o peito e se apressou em frisar: “mas eu sou Belo”!


Adiantando o relógio, dias mais a frente levei-o com o irmão a uma reunião da Nêgo Jampa (torcida familiar do Vitória aqui em João Pessoa).


Além do gosto próprio, Benjamin curte oposição, pirraça, arenga.


De cara se recusou a vestir camisa, porque ele não torcia parta o Vitória. “Sou Belo”, frisava.


Completou dizendo que iria dar todas as coisas do Vitória a um menino de rua.


Eu rebati que guardaria para a minha coleção de itens.


Ele disse que eram dele e ele que escolhia o que fazer.


Claro que contive a “ozadia” mirim.


Fato é que ok, ok, seguimos com ele de Sonic para o jogo do ECV, único não paramentado do local.


Após o encontro ele conta a mãe que nem sabia o resultado, pois estava concentrado no jogo do tablet com um "parcinha" novo que fez lá.


Eu conto a ela sobre mais um vexame do rubro-negro baiano.


Pelo retrovisor vejo Bem rindo de canto de boca. Eu aproveito e pergunto se ele nem simpatiza com o time do estado do pai dele.


Ele, sem pestanejar, responde que “o Vitória é da Bahia, mas o Botafogo é da Paraíba”.


O juiz apita o fim do jogo.


Um a zero para o Ben.


Ele ainda complementa fazendo um trocadilho incendiário entre seu time e a situação do país: “eu gosto porque é para botar fogo no Brasil de Bolsonaro!”


Posto assim o Belo ganha até a torcida paterna, momentaneamente, claro.

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