O BURACO DA FECHADURA

rabiscos, escrevinhações, achismos e outras bobagens

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  • marcosthomazm

“TUDO CERTO, COMO DOIS E DOIS SÃO CINCO!”



Recentemente li uma matéria sobre a estada do cantor australiano Nick Cave em terras brasileiras... Ícone do cenário de música alternativa, ele residiu no Brasil entre 1990 e 1993. Além da história recheada de fatos pitorescos me chamou a atenção em especial uma declaração dele em que ressaltava o fascínio inicial pela alegria e intensidade do modo de vida dos brasileiros, mas uma espécie de decepção final com o que o próprio classificava como “uma obtusidade das pessoas para quase todo assunto”! Antes da impulsiva e passional reação de atacar o olhar estrangeiro sobre nós prefiro expandir a percepção como uma possibilidade de nos enxergar sob uma perspectiva, além do nosso próprio “aquário”. E, adianto logo, não só entendo como concordo com a definição do gringo!



Somos talhados na crença em soluções fáceis, simplismos e quase milagres terrenos para resolução de problemas, sejam eles de qualquer complexidade que se apresentem. No pensamento comum, invariavelmente, se ignora o aprofundamento dos debates acerca das questões para privilegiar frases de efeito, enfatizar necessidades de mudanças bruscas (mesmo em total desprezo a direção que apontem e o modus operandi forjado para atingir tais objetivos). Uma crônica e endêmica falta de densidade analítica e apego a superficialidades para definir opiniões, aliado a uma incontrolável necessidade de se posicionar, mesmo sobre algo que não se tem qualquer embasamento. Assim, nos tornamos o país do “tem que mudar isso aí, ok?”.

Mas para fugir do lugar comum, não embarcar no caminho fácil de “chover no molhado”, nesta feita vou desviar de explorar a sempre fértil e tenebrosa política brasileira. Para ilustrar nossa frágil, inconsistente e pobre capacidade de se aprofundar na análise dos fenômenos diversos ficarei no trivial, mas não menos revelador sobre nós. Aquele que é dos nossos elementos mais unificadores enquanto povo, cultura e hábitos: o futebol.



E nem precisamos ir longe, basta nos atermos a episódios do futebol restritos a este ano de 2018:

1) O Sampaio Côrrea, a “Bolívia Querida” do Maranhão, no primeiro semestre, foi conduzido ao inédito e improvável título do Campeonato do Nordeste pelo técnico Roberto Fonseca. Na trajetória eliminou gigantes regionais como a dupla baiana Vitória e Bahia, sem levar um único gol nos quatro duelos contra ambos e levantando a taça em plena Salvador, na tradicional Fonte Nova. Mas, a despeito do feito histórico, apenas um mês depois, o treinador Roberto Fonseca foi demitido do cargo pelo fato do time estar figurando na zona de rebaixamento da segunda divisão do Brasileirão. À época não havíamos ultrapassado sequer um terço da competição. Hoje, na reta final (faltam apenas 2 jogos), o Sampaio, após passar por dois outros técnicos, já está matematicamente rebaixado. Enquanto isso, o renegado Roberto Fonseca luta para cravar outro feito histórico: assumiu o Londrina na luta contra o descenso e está próximo a levar o Tubarão paranaense a primeira divisão nacional após longas 3 décadas. Com ele no comando o Londrina tem o melhor aproveitamento de pontos da competição, mais até do que o campeão Fortaleza, dirigido por Rogério Ceni.


2) O São Paulo de Ceni é outro exemplo emblemático... Começou o ano mais uma vez longe de qualquer perspectiva gloriosa de outrora. Apontado como “a quarta força” em elenco e perspectiva do estado paulista. Mas, após um início de brasileirão surpreendente assumiu a ponta e figurou entre postulantes ao título até o último quarto do Brasileirão e todos atribuíam ao uruguaio Diego Aguirre os méritos para esta campanha inesperada. Mas como “a expectativa é a mãe de toda decepção” a perda de força na reta final foi uma ducha de água fria na torcida, que, seguindo a tradição, passou a “pedir a cabeça” do treinador e, para aplacar os ânimos, foi atendida pela direção.


3) O terceiro exemplo vem de dois dos mais tradicionais clubes do futebol brasileiro... o Vasco da Gama e o Botafogo começaram o ano treinados respectivamente por Zé Ricardo e Alberto Valentim. Passados seis meses o quadro se inverteu e os técnicos literalmente pularam os muros da concentração e “trocaram” de agremiação. O resultado prático disso tudo?? Mudaram seis por meia dúzia!! Ambos tem basicamente o mesmo percentual de aproveitamento somando as passagens por ambos os clubes e, mais que isso, tanto Botafogo quanto Vasco chegam a reta final do Brasileirão brigando contra mais um rebaixamento a segunda divisão nacional.


4) O América-MG, após início de campanha surpreendente, como era previsível, diante do elenco e poder de investimento, “perdeu o gás” e segue a passos largos para novo descenso. Para “salvar a lavoura” recorreu ao veterano Givanildo de Oliveira, o mesmo que há apenas dois anos, levou o coelho ao titulo mineiro após longos 15 anos de jejum, mas foi demitido pouco tempo depois da conquista porque o time se situava na zona de baixo da tabela (terminou rebaixado com outro técnico). Ou seja, em intervalo de apenas dois anos o mesmo responsabilizado pela ameaça de queda do time é acionado para içá-lo do abismo.

Somos o país, dentre as grandes e tradicionais ligas de futebol do mundo com a maior rotatividade entre técnicos (a cultural mudança pela mudança). Apenas nesta edição da série A nos aproximamos da assombrosa marca de quase 30 trocas de técnicos entre os 20 clubes da primeira divisão. Apenas 3 equipes mantem os mesmos treinadores desde o começo da competição. Não há paralelo para este absurdo em nenhum outro campeonato com alguma relevância no mundo.



Lógico que muitos podem argumentar que o futebol é eminentemente passional, assim invalidando a analogia com a vida real. Eu refuto a tese, acho que nas paixões residem exatamente a relação de afinidade entre a bola e a vida em terras tupiniquins. Tratamos tudo com coração (e fígado) racionalizando pouco, ou quase nada. Como adepto convicto do lema “Mais que um jogo”, entendo o futebol como reflexo de sociedades onde ele é praticado e, ou admirado pela maior parte da população. Assim como na vida, o esporte mais popular do planeta nos oferece necessidade de interação coletiva e complexidades como a imensa gama de possibilidades, condicionantes que um jogo propicia. E estas variáveis, em nenhum espectro, pode ser reduzida a um simples fator/elemento isolado de mudança como solução para todos os males! Assim sendo, não passa de paliativo, ou pura enganação mesmo...

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